quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Que diria Karl Kraus se fosse hoje?

Quem leu Os Últimos Dias da Humanidade, de Karl Kraus, conhece o hilariante episódio da cena 9 do Primeiro Acto. O artigo de Brigitte Gabriel que transcrevi na mensagem anterior trouxe-mo à memória. Plagio aqui essa cena porque me parece captar o essencial do anti-sionismo contemporâneo por parte de grande parte dos media. (A leitura de «Brigitte Gabriel» é, portanto, indispensável.)
Brigitte Gabriel está de volta ao Líbano. Repórteres libaneses, de todo o mundo árabe, aliás, e europeus aguardavam-na. Começam a assediá-la com perguntas.
TODOS (ao mesmo tempo): Está ferida? Foi maltratada? Os israelitas abusaram de si, certo? Conte-nos tudo!
ABDUL: Brigitte, descreva para a Al-Jazeera como foi brutalmente violada por esses canalhas!
MAURICE: Foi feita prisioneira à revelia das convenções de Genebra? Para o Le Monde.
OTTO: Uma fonte próxima da nossa redacção assegurou-nos que a sua cabeça chegou mesmo a ser espetada num pau, o que consideramos ser bastante horrível. Como comenta? Para o Allgemeine Zeitung.
BRIGITTE: Senhores, senhores... Estou profundamente comovida com o vosso imenso interesse e com o meu regresso ao Líbano, mas devo dizer-vos, desde já...
MAURICE (interrompendo): Quer então dizer que, agora sim, está verdadeiramente feliz uma vez que conseguiu fugir das garras da ditadura sionista e regressar ao Líbano do seu coração...
BRIGITTE: Não, nada disso. Ia antes dizer que tenho algumas revelações para vos fazer e que certamente vos chocarão no que diz respeito à imagem que fazeis dos israelitas...
ABDUL (interrompendo): Exacto! Isso! Revelações! Eu até já trago aqui umas quantas revelações que eu próprio escrevi na redacção antes de vir para cá. Ora veja se concorda. (Lendo.) Miraculosamente resgatada ao martírio do cativeiro nazi-sionista, Brigitte, lavada em lágrimas pelo seu regresso ao amado Líbano, começa por revelar que foi violada por 73 468 soldados israelitas em menos de 2 horas...
BRIGITTE: Ei! Eu não disse nada disso! Muito pelo contrário! Não me estou a queixar de nada. Muito pelo contrário, como já disse, o que pude assistir naquele hospital israelita cheio de feridos e estropiados foi...
MAURICE (interrompendo): Como é que disse? (Escrevendo.) Os feridos e estropiados amontoavam-se às mãos cruéis dos israelitas que... Não, feridos, estropiados e criancinhas mortas... Assim? Foi isto que disse, correcto?
BRIGITTE: Mau... Olhe que não lhe admito! Estou indignada!
ABDUL (para a câmara): Ainda indignada com tudo o que viu naquele autêntico campo de concentração onde os muçulmanos são brutalmente mortos como em Auschwitz...
OTTO: Brigitte, mas quer confirmar que os israelitas empalharam a sua cabeça num pau e que, mesmo já morta, se divertiram em chutá-la e cuspi-la? Confirma-se, certo?
BRIGITTE: Meu Deus, não é possível! Como se consegue viver com tanta e tamanha mentira?
ABDUL: Bem sei, Brigitte, que parece mesmo impossível, mas a verdade é mesmo essa: os malditos israelitas conseguem viver na mais pura das mentiras. Aliás, foram eles que inventaram a mentira. Lá não é como aqui, no Líbano, onde impera a verdade. Aqui você pode falar aberta e sinceramente sobre as mentiras sionistas. Estamos aqui para ouvi-la e registar o seu inestimável testemunho.
BRIGITTE: Mas como? Ninguém me está a ouvir? Acham que se tivesse sido brutalmente maltratada, que não estaria aqui a gritar, a plenos pulmões, LIBERDADE! LIBERDADE!
MAURICE (escrevendo): Visivelmente emocionada, Brigitte fala da forma como foi brutalmente maltratada a pontapé e atirada por umas escadas abaixo e tudo, até que não mais resiste e grita finalmente, a plenos pulmões, a palavra que os sionistas mais temem: LIBERDADE! LIBERDADE! É verdadeiramente um momento emocionante...
BRIGITTE: Que está a dizer? Estou a dizer-vos que os médicos israelitas trataram toda a gente por igual, muçulmanos, palestinianos, cristãos... A qualidade humana...
ABDUL (para a câmara): Brigitte conta agora como foi sujeita, ela e todos os muçulmanos, a experiências médicas inenarráveis que envergonhariam o próprio Mengele...
BRIGITTE: Chega! Quero dizer ao povo libanês que protesto veementemente...
ABDUL (para a câmara): E quando tentou, inutilmente, protestar... Sim, continue...
BRIGITTE: Continuar? Continuar o quê? Nunca vivi nada assim!
ABDUL (virando-se para a câmara): ... foi esbofeteada até aos limites do seu sofrimento sem saber como pôde ter sobrevivido.
OTTO (escrevendo): Sim, estamos agora em condições de confirmar que Brigitte Gabriel foi decapitada e a sua cabeça empalhada num pau. Lembremos a coragem desta mulher que, mesmo depois de selvaticamente assassinada, se dispõe a vir contar ao mundo as atrocidades que viveu às mãos dos nazi-sionistas. Lembremos, portanto, a sua doce memória...
BRIGITTE: Mas...? Eu estou viva... Eu estou aqui! Viva!
ABDUL (para a câmara): E sem mais motivos de reportagem, despeço-me e é tudo daqui. Eu sou o Abdul, a Al-Jazeera em Beirute, Líbano.

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