
Não fora aquele célebre episódio do Auto da Barca do Inferno em que o próprio Diabo demonstra vícios «anti-semitas» (termo ambíguo) e defender Israel seria fazer o papel de «advogado do Diabo». Não estamos, contudo, muito longe disso. Escrevo a partir do artigo de Fernando Pinheiro, surgido no nº anterior deste jornal, para dizer que representa a patética sinédoque de uma certa Europa: a dos tiques chomskyanos que fala de Direitos Humanos com a boca cheia. Esta, como o famoso Dantas, cheira mal da boca. Pim! A «boa consciência europeia» (termo que será sujeito, como ensinou Husserl, à sua própria epochè) diverte-se a contar os pêlos do rabo da Esfinge, para não ter que enfrentar o seu olhar (assim falava Unamuno). Mesmo assim, só conta alguns pêlos desse rabo. Será sempre mais fácil entregarmo-nos a uma espécie de acne intelectual e sermos absorvidos pelo complexo de David contra Golias, porque na guerra da opinião pública mundial Vénus sempre vencerá Marte. Afinal, conhecer a intrincada história do conflito não importa (a analepse teria de abarcar o próprio Império Otomano, os pogroms czaristas, o affaire Dreyfus...). O que importa é ser a favor da paz. Mas o que significa, em bom rigor, ser a favor da paz? Qualquer candidata a Miss Universo concordaria com o artigo de que falo. Quando lhes é solicitado que mostrem “consciência social”, lá vão dizendo, sem estragar o bâton: «Eu gostaria que não houvesse fome e guerra no mundo». Chapeau! E é mais ou menos esta beataria pacifista que transpira desse artigo, esquecendo que não fazer a guerra não explica, por si só, como fazer a paz. A paz não é uma consequência natural do fim da guerra. A paz, tal como a guerra, faz-se. Por isso não somos apenas Sapiens mas também Faber. E esquecemos que a guerra é uma invenção humana com o fim de resolver certos conflitos. O pacifismo é a subvalorização do inimigo (que termo tão antiquado, Sr. von Clausewitz...). Para acabar com a guerra não basta acabar com a guerra, não basta não fazê-la. Porque a paz desejada não se realiza só porque a desejamos. Deveríamos lembrar 1938 e o Acordo (ou a Vergonha) de Munique, todo ele uma tentativa nobilíssima de apaziguar (a noção de «paz» está aqui contida) um Hitler traquinas. Mas a paz a qualquer custo tem sempre um custo elevado. Por isso disso disse Churchill: «Entre a desonra e a guerra, eles escolheram a desonra, e terão a guerra». Citar Shaw não chega. Até porque Shaw tem razão, mesmo contra os que o citam. Nada aprendemos com a história. Continuaremos a preferir a paz a qualquer custo. Mesmo que falsa. Mesmo que vichyzada. O artigo de Fernando Pinheiro é deste tipo. Tem as virtudes do “politicamente correcto”, mas também padece dos seus vícios. Pulula de expressões-gambuzino (é mais fácil falar dele do que vê-lo): «terrorismo de Estado», guerra «feita contra civis», «apogeu da crueldade humana», «guerra desleal» que «roça perigosamente a barbárie» (e, já agora, agora que se sabe que os 4 observadores da ONU que morreram no bombardeamento israelita foram feitos “escudos humanos” pelo Hezbollah, reveja o que escreveu sobre isso no seu artigo; retractar-se não lhe ficaria mal). Não importa se Israel apela com antecedência à população para abandonar os locais que vai atacar, perdendo com isso a vantagem estratégica da surpresa; não importa se, com isso, o número de mortos não é brutalmente maior do que o que seria se Israel estivesse a fazer uma guerra «contra civis»; não importa se Israel não faz propaganda dos seus mortos; não importa se o Hezbollah assume no seu programa (já o leram?) a «necessidade da destruição do Estado de Israel»: «Não reconhecemos nenhum tratado com a entidade sionista, nenhum cessar-fogo, e nenhum acordo de paz», «Condenamos vigorosamente todos os planos de negociação com Israel» (não sabiam?); não importa que Israel não tenha iniciado nenhuma das guerras de sobrevivência (digo bem) em que, desde 1948, se vê envolvido; não importa que apenas em Israel seja possível a um árabe muçulmano exercer o direito de voto em eleições e ter a esperança de, assim, ter alguma influência no resultado; não importa que a paz só se possa fazer com um agente responsável com quem negociar. O que importa é ser a favor da paz. Seja lá o que for que isso queira dizer. Comecemos então por nós próprios e denunciemos o flagrante obstáculo constitucional à paz portuguesa que é o Código Penal. E façamos de todos os seus exemplares um belíssimo auto-da-fé. De certeza que o crime desaparecerá da nossa sociedade como letras na areia que o mar docemente lambe e engole. A guerra deveria ser como a da Leopoldina: com exércitos de música. Mas apenas num mundo de Leopoldinas. Já ouviram o hilariante monólogo de Raul Solnado sobre a guerra de 1908? A guerra, obviamente, não é assim. Mas Raul Solnado estava a brincar; não, como tantos outros, a falar a sério. Já dizia Baudelaire que o maior ardil do Diabo é fazer-nos crer que não existe...
(Publicado no Jornal de Barcelos, no verão de 2006)
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