É polticamente incorreto dizê-lo. Portanto, politicamente delicioso. E Popper disse-o, em 1988, exactamente como deve, ainda hoje, dizer-se: «Não quero terminar sem umas palavras sobre o êxito da busca de um mundo melhor ao longo dos 86 anos da minha vida, num período que cobre duas guerras mundiais absurdas e ditaduras criminosas. Apesar de tudo, e muito embora tenhamos falhado em tanta coisa, nós, os cidadãos das democracias ocidentais, vivemos numa ordem social mais justa e melhor (porque mais favorável às reformas) do que qualquer outra, de que tenhamos conhecimento histórico». No combate entre a justiça e a injustiça, entre a democracia e o terrorismo e/ou a ditadura, entre uma criança que se protege refugiada num bunker e uma criança doutrinada para se fazer explodir, há um maniqueísmo decente, este maniqueísmo popperiano. Para que não cheguemos ao inominável ponto de perdermos o sentido do escândalo, da vergonha e do horror. Para que fique claro, portanto, que Bush não é comparável a Saddam Hussein e a Ahmadinejad nem o Estado de Israel ao Hezbollah e ao Hamas. Claro que há nisto dois pesos e duas medidas. E ainda bem. Todo o conceito de racionalidade se entorna quando, com medo do maniqueísmo, fazemos equivaler Israel ao Tercerio Reich (já vi escrito «iSSrael»), a Palestina a Auschwitz, Sharon a Hitler, etc. Alguém criticou um dia a democracia se ela se der ao seguinte descaramento: 5 minutos para os judeus e 5 minutos para Hitler. Hoje em dia, ainda nos damos ao desplante de distribuir igualitariamente estes 10 minutos. E, de 10 em 10 minutos, lá vamos nós dando vitórias póstumas a Hitler e Estaline. quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Elogio do maniqueísmo - popperiano
É polticamente incorreto dizê-lo. Portanto, politicamente delicioso. E Popper disse-o, em 1988, exactamente como deve, ainda hoje, dizer-se: «Não quero terminar sem umas palavras sobre o êxito da busca de um mundo melhor ao longo dos 86 anos da minha vida, num período que cobre duas guerras mundiais absurdas e ditaduras criminosas. Apesar de tudo, e muito embora tenhamos falhado em tanta coisa, nós, os cidadãos das democracias ocidentais, vivemos numa ordem social mais justa e melhor (porque mais favorável às reformas) do que qualquer outra, de que tenhamos conhecimento histórico». No combate entre a justiça e a injustiça, entre a democracia e o terrorismo e/ou a ditadura, entre uma criança que se protege refugiada num bunker e uma criança doutrinada para se fazer explodir, há um maniqueísmo decente, este maniqueísmo popperiano. Para que não cheguemos ao inominável ponto de perdermos o sentido do escândalo, da vergonha e do horror. Para que fique claro, portanto, que Bush não é comparável a Saddam Hussein e a Ahmadinejad nem o Estado de Israel ao Hezbollah e ao Hamas. Claro que há nisto dois pesos e duas medidas. E ainda bem. Todo o conceito de racionalidade se entorna quando, com medo do maniqueísmo, fazemos equivaler Israel ao Tercerio Reich (já vi escrito «iSSrael»), a Palestina a Auschwitz, Sharon a Hitler, etc. Alguém criticou um dia a democracia se ela se der ao seguinte descaramento: 5 minutos para os judeus e 5 minutos para Hitler. Hoje em dia, ainda nos damos ao desplante de distribuir igualitariamente estes 10 minutos. E, de 10 em 10 minutos, lá vamos nós dando vitórias póstumas a Hitler e Estaline.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário