terça-feira, 20 de novembro de 2007

Israel: o atrevimento de existir, hoje

Bem, agora os judeus têm novamente o seu lar. Um lugar que é seu. E aí é que está. Não importa quantas vezes os Estados Unidos e os poderes europeus tentam mandar em Israel, se chegar à sobrevivência da sua nação, do seu povo, eles lutarão como nenhuma leoa alguma vez lutou para salvar as suas crias. Eles lutarão com uma tal ferocidade, uma tal determinação e uma tal perícia que nos assombrará a todos.
(Joe McCain)

Afinal, e se uma bomba israelita fizer mais pela paz do que todas as resoluções da ONU? Se assim for, a quem deve ser imputada a triste responsabilidade? À marginalidade de Israel ou à incompetência das Nações Unidas? Já sabemos o que significa, para as putativas Nações Unidas, o exercício da «diplomacia»: não fazer rigorosamente nada por meio de resoluções e propostas de aprovação de sanções. Não fosse a situação tão séria e diríamos que já tínhamos visto tudo isto em certo filme dos Monty Python. Em casos tão prementes como o de um Irão nuclear, esta evidência torna-se ainda mais flagrante. Veio a confirmar-se, há pouco, aquilo que qualquer pessoa minimamente atenta havia já suspeitado: Israel está, as we speak, a estudar a hipótese de fazer com o Irão de Ahmadinejad aquilo que, em 1981, fez com o Iraque de Saddam. Nessa altura, como se sabe, Israel, num assalto aéreo de fazer inveja aos melhores filmes de ficção (vale a pena conhecer os pormenores da operação em Os Espiões de Gedeão), destruiu o reactor nuclear que o defunto Presidente estava a construir com o apoio do berço dos Direitos Humanos, la France. Obviamente, Israel foi condenado na «opinião mundial» (essoutro monótono fenómeno da globalização, a estupidez global ou globlá-blá-blá). Alguns (os mais sensatos, espero) suspiraram de alívio por dois motivos: por Israel ter destruído a possibilidade de um Iraque nuclear e por ter sido Israel a realizar esse higiénico «trabalho sujo». Ao que a The Spectator conta, Israel está tecnicamente preparado para realizar, sozinho, um ataque às respectivas instalações iranianas. E é bom que não nos convençamos de que Israel está a brincar. Se esse cenário vier a confirmar-se, o grande dedo acusatório apontar-se-á, sem surpresas, a Israel. Mas o mundo vai ter que perceber, mais tarde ou mais cedo (mais tarde do que mais cedo, provavelmente), que Israel está, desde o dia em que nasceu, determinado a existir, custe o que custar; que Israel não negociará o seu inegociável direito a existir, custe o que custar; e que Israel não vai pedir desculpa nem licença a ninguém para existir, custe o que custar. Nem que, para isso, tenha de fazer, vezes sem conta, o «trabalho sujo» que mais ninguém está disposto a fazer. In suo esse perseverare conatur – não era assim que dizia um outro judeu, Espinosa?Até certo ponto, sinto-me mais seguro por saber que existe neste planeta idiota um pequeno mas deliciosamente teimoso Estado que não está disposto a aceitar a sua própria e carinhosa eutanásia por procuração nem a cometer com o pequeno Hitler iraniano o mesmo erro que, contra o que prevenira Churchill, a Europa (como sinédoque, entenda-se) cometeu, não há muito tempo, com o grande Ahmadinejad austríaco. A diplomacia de antanho não evitou o rearmamento obeso da Alemanha nazi, lembram-se? E, contudo (ou: e por isso mesmo), também não evitou a guerra. Se Israel se vir obrigado a iraquizar o Irão, choverão, já sabemos, as mais indignadas críticas que imaginar se pode. Acusar-se-á Israel de ser um perigo contínuo para a paz mundial. Acusar-se-á Israel de agir arrogantemente à margem do Direito Internacional. Os EUA serão igualmente acusados de cumplicidade, já se sabe. Os bloquistas e os comunistas de toda a parte abusarão, como sempre, do seu poder retórico e travestirão as mais velhas metáforas com o mais recente silicone metafórico, diante do qual voltarei a bocejar indignadamente. A Ocidente, nada de novo, portanto. Todavia, talvez no dia em que percebermos que não é apenas de Israel que se trata e que, como disse Miguel Esteves Cardoso recentemente sobre o conflito no Líbano, «Nós também somos Israel», talvez nesse dia, dizia, também nós estaremos dispostos a ter que, de quando em quando e em legítima defesa, «sujar as mãos», porque há momentos na vida dos Estados (como na das pessoas) em que essa é a única maneira de viver de consciência limpa.
Não há muito tempo, alguém escreveu sobre Portugal e o seu "medo de existir". Com Israel passa-se o inverso: um sublime atrevimento de existir. Assim. Sem mais.
(23 de Janeiro de 2007)

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