quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Maomé + «teddy bear» = deportação


O termo «impensável» começa, na espuma dos dias, a perder a sua força de escândalo, banalizando-se até ao absurdo. Conta o New York Times que uma professora britânica no Sudão, Gillian Gibbons, foi condenada a 15 dias de prisão e consequente deportação por incitamento ao ódio religioso. Que fez, afinal, esta paganorum dea, esta velha bruxa da Sabóia? Rasgou um Corão, para imitar o outro do Clube dos Poetas Mortos? Entrou numa mesquita praguejando e insultando Alá? Fazia espionagem para a Mossad? Pior. Muito pior! Permitiu que, numa lição sobre o processo democrático, os seus pequenos alunos pusessem a um ursinho de peluche o nome de «Maomé». Ah, bom... Então, é merecido. Isso é declaradamente «incitamento ao ódio religioso». Se bem que - parece-me - as suratas do Corão sejam omissas em relação a ursos de peluche...

«Hamas demands UN rescind '47 partition»

Este é um dos títulos do Jerusalem Post de hoje. O grupo «resistente» (chamemos-lhe assim, em honra da idiotice de Miguel Portas) disse ainda numa declaração lançada no 60º aniversário da votação da ONU, para que não restasse qualquer dúvida: «A Palestina é terra árabe islâmica, do rio até ao mar, incluindo Jerusalém... não há nela lugar para os judeus». Portanto, quando uma nova Intifada tiver lugar, não nos esqueçamos de acusar Israel pelo facto de não existir ainda uma Palestina livre e independente e frisemos bem que os palestinianos demonstraram sempre uma estóica vontade em resolver, de uma vez por todas, o conflito. Afinal, a única coisa que querem é a paz. Sem judeus, evidentemente. Mas a paz.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Give communism another chance!

He! He! He! He! He!

Pertences à Mocidade Antiamericana? Faz já o questionário!

Questionário «De quem é a culpa? Oh, vá, adivinhem lá...»
Agora já podes parar um bocadinho de fumar droga e saber, finalmente, por que razão odeias a América! Responde a este questionário logo que passe o efeito e verás que não é à toa que tens uma T-Shirt do Che Guevara!
[questionário destinado a todos os jovens antiamericanos que o são sem saberem sequer porquê e a todas as chaleiras eléctricas da Moulinex que também o são sem saberem porquê.]
1. A paz mundial está longe de ser alcançada. De quem é a culpa?
a) dos EUA
b) dos EUA, obviamente
c) e isso é pergunta que se faça?
d) de George W. Bush
2. Imagine que um estado árabe invade outro estado árabe. De quem é a culpa?
a) dos EUA
b) do estado árabe protegido pelos EUA
c) do petróleo que os EUA querem controlar
d) do imperialismo capitalista dos EUA
3. No dia 11 de Setembro de 2001, o mundo mudou. De quem é a culpa?
a) dos EUA
b) da Administração Bush, que eu até li e livro do Meyssan e vi aquele documentário
c) da CIA, que treinou o Bin Laden, coitado
d) do Bush, que estava mesmo ansioso para invadir o Iraque
4. Cuba é uma ditadura comunista desde 1959. De quem é a culpa?
a) dos EUA
b) do embargo norte-americano
c) dos EUA que querem em Cuba uma democracia-fantoche
d) que culpa? Cuba não é uma ditadura! «Hasta la victoria siempre»!
5. O comunismo matou mais de 100 milhões de pessoas. De quem é a culpa?
a) dos EUA
b) dos EUA, porque se meteram ao barulho com a URSS
c) não sei o que é um «gulag», por isso... EUA!
d) não acredito: 100 milhões? Não pode ser! Isso é propaganda de Washington!
6. O Estado de Israel existe desde 1948. De quem é a culpa?
a) dos EUA
b) dos EUA, porque mandam em Israel
c) dos EUA, porque o lobby judaico manda nos EUA
d) dos EUA, porque sim, foda-se!
7. Os palestinianos matam-se uns aos outros em Gaza e na Cisjordânia. De quem é a culpa?
a) dos EUA
b) de Israel, ou seja, dos EUA
c) dos EUA e de Israel, ou seja, dos EUA
d) morte à América! Palestina livre!
8. Grande parte do mundo árabe tornou-se terrorista. De quem é a culpa?
a) dos EUA
b) dos EUA, que são o Tio (Sam) deles todos
c) dos EUA, por causa do petróleo e do capital financeiro
d) terroristas são os EUA! Aquilo é terrorismo de Estado, qu'inda é pior!
9. Amanhã é capaz que chova. De quem é a culpa?
a) dos EUA
b) dos EUA, por causa de Kyoto
c) do Bush, sei lá porquê!
d) do Bush, que só se enterra no Iraque e é bem feita!
10. O meu piriquito morreu ontem, implodindo sobre o seu próprio eixo. De quem é a culpa?
a) dos EUA
b) dos EUA
c) dos EUA
d) todos os anteriores

PCP - mais uma lição de democracia

Mais uma expulsão. Este pessoal do PCP não descansa. Agora é a vez de Luísa Mesquita. Já não falta muito para o próprio PCP ir c'os porcos. Em nome da democracia. Ainda voltarei a isto.

Os comunistas comem criancinhas, mas as criancinhas comunistas é que é!


O líder da Juventude Popular veio acusar o presidente do grupo parlamentar do PCP, Bernardino Soares, de ter sido um dos principais protagonistas dos «distúrbios revolucionários» do Verão Quente de 1975 - altura em que o deputado comunista tinha apenas 4 anos. O que ele não disse foi que, 4 anos antes, Bernardino Soares já comia criancinhas do CDS, limpava os beiços ao seu Che Guevara amniótico e era já um pedófilo de renome.
Meu Deus, que raio de partido é este PP que até me obriga a defender um comunista?

Que diria Karl Kraus se fosse hoje?

Quem leu Os Últimos Dias da Humanidade, de Karl Kraus, conhece o hilariante episódio da cena 9 do Primeiro Acto. O artigo de Brigitte Gabriel que transcrevi na mensagem anterior trouxe-mo à memória. Plagio aqui essa cena porque me parece captar o essencial do anti-sionismo contemporâneo por parte de grande parte dos media. (A leitura de «Brigitte Gabriel» é, portanto, indispensável.)
Brigitte Gabriel está de volta ao Líbano. Repórteres libaneses, de todo o mundo árabe, aliás, e europeus aguardavam-na. Começam a assediá-la com perguntas.
TODOS (ao mesmo tempo): Está ferida? Foi maltratada? Os israelitas abusaram de si, certo? Conte-nos tudo!
ABDUL: Brigitte, descreva para a Al-Jazeera como foi brutalmente violada por esses canalhas!
MAURICE: Foi feita prisioneira à revelia das convenções de Genebra? Para o Le Monde.
OTTO: Uma fonte próxima da nossa redacção assegurou-nos que a sua cabeça chegou mesmo a ser espetada num pau, o que consideramos ser bastante horrível. Como comenta? Para o Allgemeine Zeitung.
BRIGITTE: Senhores, senhores... Estou profundamente comovida com o vosso imenso interesse e com o meu regresso ao Líbano, mas devo dizer-vos, desde já...
MAURICE (interrompendo): Quer então dizer que, agora sim, está verdadeiramente feliz uma vez que conseguiu fugir das garras da ditadura sionista e regressar ao Líbano do seu coração...
BRIGITTE: Não, nada disso. Ia antes dizer que tenho algumas revelações para vos fazer e que certamente vos chocarão no que diz respeito à imagem que fazeis dos israelitas...
ABDUL (interrompendo): Exacto! Isso! Revelações! Eu até já trago aqui umas quantas revelações que eu próprio escrevi na redacção antes de vir para cá. Ora veja se concorda. (Lendo.) Miraculosamente resgatada ao martírio do cativeiro nazi-sionista, Brigitte, lavada em lágrimas pelo seu regresso ao amado Líbano, começa por revelar que foi violada por 73 468 soldados israelitas em menos de 2 horas...
BRIGITTE: Ei! Eu não disse nada disso! Muito pelo contrário! Não me estou a queixar de nada. Muito pelo contrário, como já disse, o que pude assistir naquele hospital israelita cheio de feridos e estropiados foi...
MAURICE (interrompendo): Como é que disse? (Escrevendo.) Os feridos e estropiados amontoavam-se às mãos cruéis dos israelitas que... Não, feridos, estropiados e criancinhas mortas... Assim? Foi isto que disse, correcto?
BRIGITTE: Mau... Olhe que não lhe admito! Estou indignada!
ABDUL (para a câmara): Ainda indignada com tudo o que viu naquele autêntico campo de concentração onde os muçulmanos são brutalmente mortos como em Auschwitz...
OTTO: Brigitte, mas quer confirmar que os israelitas empalharam a sua cabeça num pau e que, mesmo já morta, se divertiram em chutá-la e cuspi-la? Confirma-se, certo?
BRIGITTE: Meu Deus, não é possível! Como se consegue viver com tanta e tamanha mentira?
ABDUL: Bem sei, Brigitte, que parece mesmo impossível, mas a verdade é mesmo essa: os malditos israelitas conseguem viver na mais pura das mentiras. Aliás, foram eles que inventaram a mentira. Lá não é como aqui, no Líbano, onde impera a verdade. Aqui você pode falar aberta e sinceramente sobre as mentiras sionistas. Estamos aqui para ouvi-la e registar o seu inestimável testemunho.
BRIGITTE: Mas como? Ninguém me está a ouvir? Acham que se tivesse sido brutalmente maltratada, que não estaria aqui a gritar, a plenos pulmões, LIBERDADE! LIBERDADE!
MAURICE (escrevendo): Visivelmente emocionada, Brigitte fala da forma como foi brutalmente maltratada a pontapé e atirada por umas escadas abaixo e tudo, até que não mais resiste e grita finalmente, a plenos pulmões, a palavra que os sionistas mais temem: LIBERDADE! LIBERDADE! É verdadeiramente um momento emocionante...
BRIGITTE: Que está a dizer? Estou a dizer-vos que os médicos israelitas trataram toda a gente por igual, muçulmanos, palestinianos, cristãos... A qualidade humana...
ABDUL (para a câmara): Brigitte conta agora como foi sujeita, ela e todos os muçulmanos, a experiências médicas inenarráveis que envergonhariam o próprio Mengele...
BRIGITTE: Chega! Quero dizer ao povo libanês que protesto veementemente...
ABDUL (para a câmara): E quando tentou, inutilmente, protestar... Sim, continue...
BRIGITTE: Continuar? Continuar o quê? Nunca vivi nada assim!
ABDUL (virando-se para a câmara): ... foi esbofeteada até aos limites do seu sofrimento sem saber como pôde ter sobrevivido.
OTTO (escrevendo): Sim, estamos agora em condições de confirmar que Brigitte Gabriel foi decapitada e a sua cabeça empalhada num pau. Lembremos a coragem desta mulher que, mesmo depois de selvaticamente assassinada, se dispõe a vir contar ao mundo as atrocidades que viveu às mãos dos nazi-sionistas. Lembremos, portanto, a sua doce memória...
BRIGITTE: Mas...? Eu estou viva... Eu estou aqui! Viva!
ABDUL (para a câmara): E sem mais motivos de reportagem, despeço-me e é tudo daqui. Eu sou o Abdul, a Al-Jazeera em Beirute, Líbano.

Brigitte Gabriel


Chegou ao meu conhecimento um artigo de Brigitte Gabriel, de 13 de Setembro de 2005. Ainda hoje serve de exemplo. Intitula-se «I believed the lies about Israel». Merece ser lido integralmente.

I was raised in Lebanon, where I was taught that the Jews were evil, Israel was the devil, and the only time we will have peace in the Middle East is when we kill all the Jews — drive them into the sea. When the Moslems and "Palestinians" [Arabs] declared Jihad on the Christians in 1975, they started massacring the Christians, city after city. I ended up living in a bomb shelter underground from age 10 to 17, without electricity, eating grass to live, and crawling under sniper bullets to a spring to get water.It was Israel that came to help the Christians in Lebanon. My mother was wounded by a Moslem's shell and taken to an Israeli hospital for treatment. When we entered the emergency room, I was shocked at what I saw. There were hundreds of people wounded — Moslems, "Palestinians" [Arabs], Christians, Lebanese, and Israeli soldiers lying on the floor. The doctors treated everyone according to his or her injury. They treated my mother before they treated the Israeli soldier lying next to her. They didn't see religion, they didn't see political affiliation — they saw people in need and they helped. For the first time in my life I experienced a human quality I know my culture would not have shown to the enemy. I experienced the values of the Israelis, who were able to love their enemy in their most trying moments. I spent 22 days at that hospital. Those days changed my life and the way I believe information — the way I listen to the radio or to television. I realized I was sold a lie by my government about the Jews and Israel. I knew for a fact that if I were a Jew standing in an Arab hospital, I would be lynched and thrown to the ground, as shouts of Allahu Akbar — Allah is great — echoed through the hospital and the surrounding streets.I became friends with the families of the Israeli wounded soldiers — one in particular, Rina, whose only child was wounded in his eyes. One day I was visiting with her, and the Israeli army band came to play national songs to lift the spirits of the wounded soldiers. As they surrounded his bed playing a song about Jerusalem, Rina and I started crying.I felt out of place and started waking out of the room, and this mother holds my hand and pulls me back in without even looking at me. She holds me crying and says, "It is not your fault." We just stood there sobbing, holding each other's hands.What a contrast between her, a mother looking at her deformed 19-year-old child and still able to love me, the enemy, and a Moslem mother who sends her son to blow himself to smithereens just to kill a few Jews or Christians.The difference between the Arabic world and Israel is a difference in values and character. It's barbarism versus civilization. It's democracy versus dictatorship. It's good versus evil. They blame suicide bombing on "desperation of occupation." Let me tell you the truth. On Sunday morning, February 22, 1948, in anticipation of Israel's independence, a triple truck bomb was detonated by Arab terrorists on Ben Yehuda Street, in what was then the Jewish section of Jerusalem. Fifty-four people were killed and hundreds wounded.Arab terrorism is caused not by the “desperation of occupation” but by the very thought of a Jewish state. So many times in history citizens have stood by and done nothing, allowing evil to prevail. As America stood up against and defeated communism, now it's time to stand up against the terror of religious bigotry and intolerance. It's time to stand up, to support and defend the state of Israel, which is the front line of the war against terrorism.

[Ver: http://www.overateacup.com/gabriel1.html]

Ahmadinechato


O Jerusalem Post noticia hoje que Ahmadinejad voltou a abrir a sua sapiente e pacificadora boca para dizer, desta vez, que Israel - a «entidade sionista», vá, para esclarecimento conceptual - está «condenada ao colapso»: «É impossível que o regime sionista sobreviva. O colapso está na natureza deste regime porque foi criado na agressão, na mentira, na opressão e no crime». Sim, sim... Zzzzzzzzzz... Pois... Já outros tentaram, em outras ocasiões. Um deles acabou solenemente num bunker a dar um tiro na própria cabeça e outro, ainda há pouco, foi encontrado num buraco, como um animal, acabando por ser telenforcado. Como será que este palhaço vai acabar? Daqui a uma década, não será mais do que um pequeno capítulo da história de Israel, já se sabe. Mas como vai acabar? Que forma revestirá a sua humilhação?

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Annapolis, Novembro de 2007

Annapolis. Novembro de 2007. Como virá a ser lembrada? Quem será responsável pelas «concessões dolorosas» e quem será responsável pelo fracasso que se seguirá? Annapolis. Novembro de 2007. Data histórica ou dramática? Dependará destes três homens ou da corja do Hamas?

No mundo em que o melhor do mundo são as crianças


Já sabíamos que nas guerras e conflitos que opõem israelias e o mundo árabe, os primeiros, pura e simplesmente, se recusam a fazer propaganda dos seus mortos, sobretudo se se tratar de crianças. No último conflito no Líbano contra o Hezbollah, no Verão de 2006, duas reportagens jornalísticas traçaram a linha que separa as mentalidades. Uma reportagem em Beirute que, basicamente, não passou de uma montra de sofrimento: mulheres e crianças que expunham, a mando dos seus telecaixeiros do sofrimento alheio, toda a sua dor e amputações e mortos - de preferência, claro, crianças. Não só as crianças não são poupadas durante a guerra, como servem de poderosíssimo escudo humano à causa e, principalmente, continuam a não ser poupadas mesmo depois de mortas. Outra reportagem, agora em Israel. Numa cidade do norte de Israel - não me lembro do nome -, durante o mesmo conflito. Tratava-se de uma reportagem sobre a ajuda que algumas empresas do sul de Israel vieram prestar ao norte, diariamente atingido por Katiusha's do Hezbollah. Essa ajuda consistiam em... brinquedos. Brinquedos para as crianças israelitas. Para que, no meio da guerra dos adultos, as crianças possam, na medida do possível, continuar a ser crianças. Para que, no meio da guerra, elas sejam poupadas e possam continuar a brincar. A forma como cada lado trata as suas crianças é, portanto, evidente. Ora, no Público de ontem (26 de Novembro de 2007), Margarida Santos Lopes fala-nos da escola Yad B'Yad («Mão na Mão»), uma escola de judeus e árabes, «onde se pode coexistir e discordar». Tem dois directores, um árabe, Alia Khatib, e uma judia, Dalia Peretz. Onde existe esta escola? Em Israel. Algum país inimigo de Israel tem algo que se assemelhe sequer? Pois... Está tudo dito sobre este país que insiste em perpetuar os ódios e as guerras entre as partes. Está tudo dito sobre este racista e, sobretudo, nazi Quarto Reich.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Israel morreu

«Com o passar dos anos, as comunidades dos campos de refugiados, inteiramente dependentes da ajuda alimentar e educativa das Nações Unidas, entraram em estado de revolta. Só podiam». Estas palavras são de Miguel Portas, no seu livro No Labirinto, sobre o Líbano. Chegamos sempre a este ponto, como já vimos. Os palestinianos são sempre vítimas. Só podiam fazer o que fizeram e nada mais: só podiam, ainda uma vez. O fatalismo da lei da necessidade reside, justamente, aí. E é absolutamente tentador. Como num célebre exemplo de Espinosa sobre uma pedra atirada que, ignorando as causas do seu movimento aéreo, se julga livre, dir-se-ia, levando o argumento de Miguel Portas ao seu delicioso nec plus ultra da desresponsabilização, que a causa das pedras palestinianas lançadas contra os tanques israelitas são os próprios tanques israelitas contra os quais as pedras embatem. As pacíficas e espinosistas mãos palestinianas são meros títeres jogados por ocultas e, nesse sentido, israelitas mãos. Se virmos bem, os palestinianos nem sequer existem, são apenas peças israelitas na enorme engrenagem autofágica israelita. No fundo, como qualquer comédia de Shakespeare nos ensinaria de uma só penada mordaz, os israelitas são gente muito bizarra. Ultimately, estamos perante tanques que atiram pedras a si próprios e autocarros que se explodem a si mesmos. No fundo, ainda uma vez, através de um movimento muito similar ao do «desassossego dialéctico» (anodetizado) de Hegel, Israel está, desde a sua criação, em guerra consigo próprio. A sua história não é outra, afinal, senão a história da sua própria auto-destruição. Ou, ainda hegelianamente: «Israel morreu».

Gaza bloqueada - por quem?


Este é o site de uma campanha lançada por um grupo de activistas de organizações de Direitos Humanos (já sabemos o quanto de anti-sionismo há nessas organizações) que apela ao fim do bloqueio em Gaza. Junto-me à campanha se ela significar que se dirige aos dirigentes do Hamas e da Fatah que têm mantido a respectiva população sob sequestro para fins propagandísticos. Refém de uma (a)política de vitimização que Arafat soube bem alimentar, Gaza comove-nos. E é assim que nos ludibria. Tudo o que acontece com os coitados dos palestinianos é sempre culpa de algo ou alguém, menos deles. Culpa de Israel, culpa dos EUA, culpa da UE (ou do mundo inteiro em conluio), mas nunca dos próprios palestinianos. Esses, 'taditos, são inimputáveis como os deficientes mentais. Há neste fenómeno uma colossal imbecilização dos palestinianos por parte daqueles, justamente, que pretendem defendê-los. Imbecilizando-os, portanto. Se não é a ocupação, é o bloqueio; se não é o bloqueio, é a guerra; se não é a guerra, é o lobby; se não é o lobby, é a falta de condições do relvado para a prática da nobre modalidade; se não é isto ainda, é qualquer coisa cósmica. O que importa é que os palestinianos sejam sempre vítimas. Mesmo quando desatam aos tiros uns aos outros. O bloqueio não é uma causa, mas uma consequência. Consequência das escolhas que os palestinianos por lá fizeram e é tempo de lhes pedir isso mesmo - responsabilidades e deixarmo-nos deste gú-gú-dá-dá político por parte destas putativas organizações.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Pedofilia suave II


É uma verdade de la Palisse a mediocridade, a merdiocridade da televisão portuguesa. Não lhe dedicarei, portanto, muitas linhas, tomando como dado adquirido que, mesmo sem lermos Ramonet ou Levinson, isso será consensual. Nos dias que correm, porém, não consigo deixar de sentir por ela um carinho agradecido. Mesmo nos seus momentos de violência mais ostensiva. Digo isto porque, convivendo com o tipo de televisão que me calhou em sorte, pude ser criança. Sem mais. Sem nenhum adjectivo. Criança. E digo isto também porque, há pouco tempo, descobri http://www.pmw.org.il/. Aí encontramos um pouco de tudo o que os media nos países árabes andam a fazer. É todo um tenebroso mundo orwelliano de ódio e de cultura tanática (para usarmos um termo caro a Freud). O post é o de um vídeo (Al-Manar TV, Junho de 2002) do Hezbollah apelando as crianças para a Chahada (ou Shahada, do árabe: الشهادة, «testemunho»), que é a profissão de fé dos muçulmanos e o primeiro dos cinco pilares do Islão (arqan al-Islam). Desde jogos de vídeo a manuais escolares, passando por séries televisivas à maneira das nossas telenovelas, há de tudo um pouco para doutrinar e formatar a cabeça das crianças muçulmanas para a judeofobia e o antiamericanismo. Não será isto pedofilia? Ainda que suave, mas, ainda assim, pedofilia? E não será preferível ter de aturar os casacos do Goucha e as suas dolorosas manhãs televisivas na TVI? Obrigado, televisão portuguesa, por não teres tornado o meu Tom Sawyer - e, com ele, talvez por mimese, eu próprio - um bombista-suicida. Já vimos que o Mickey, coitado, tem, afinal, genuína simpatia pela causa palestiniana e é, por isso, um anti-semita convicto. Claro que os problemas do Médio Oriente se resumem ao facto de Israel não querer, ao seu lado, um Estado palestiniano soberano. A vontade árabo-islâmico-palestiniana de erradicar Israel da superfície do planeta não tem, como é óvio, nenhuma ligação directa com esses problemas. Olhem só para as criancinhas árabes e para a ternura com que elas são educadas.

E enquanto se defende Chávez... Os trolhas da História


«Khieu Samphan, ex-chefe de Estado cambojano sob o regime dos Khmers Vermelhos (1975-1979), foi acusado formalmente nesta nesta segunda-feira de crimes de guerra e contra a humanidade pelo Tribunal patrocinado pelas Nações Unidas e encarregado de julgar os crimes cometidos sob esse regime comunista». Isto acontece enquanto a procissão dos dabates em torno da democraticidade (ou não) do actual regime venezuelano perece ir ainda no adro do seu próprio ridículo. Comentários? Bem, o jornal do PCP, «Avante!» (dá-lhe!), anda entretido em polemizar com o canal «História» por causa do Muro de Berlim. [http://www.avante.pt/noticia.asp?id=21050&area=33] Ao que parece, a Berlim da RDA era um oásis de justiça social num deserto de tiranias capitalistas a perder de vista. A história está é mal contada. «Foi a História à moda de Washington. A que está em uso. Até um dia». Ui... que medo!

Lá estão eles a recolocar os tijolos do Muro. Afinal, há que reconhecer que um comunista é sempre um simpático trolha da História.

Nós só estamos mesmo à espera disso! ah! ah! ah! ah!


Uma das inevitáveis (e, até, mais ternurentas) consequências da liberdade de expressão é, já se sabe, a estupidez. O seguinte exemplo é brutalmente esclarecedor. No Jerusalem Post de hoje, Michael Freund escreve «Fundamentally Freund: Five reasons to bomb Iran now». Não me importa agora discuti-lo. Refiro-o apenas porque um dos comentários a este artigo é qualquer coisa de desconcertante:

«92. The end of Zionist and American Hagemony
Muhammad - Malaysia 11/22/2007 03:26
Muslim around the world are hoping that Zionist or American will attact Iran because we know that this will be the 'opening ceremony' of 'wipe-off-Zionist from the world map' project. By the way, China, Rusia, UK, and some Europe countries are also waiting for this 'happy' moment.. »
AH! AH! AH! AH! AAAAAAAAAAAAAAH!

Entre o Iraque e a Coreia do Norte - o Irão


Conta o New York Times de hoje que os EUA e três dos principais aliados reconheceram que o Irão não fez ainda o suficiente para ganhar confiança no que ao seu trabalho atómico diz respeito. Parece que estão a ser consideradas sanções mais duras. Parece que a estratégia iraniana consiste, basicamente, numa cooperação sofrida e altamente reactiva. Mas o gentil-homem iraniano só quer enriquecer urânio para electricidade, gente! Não pensem que ele está a tentar apenas ganhar tempo. Nada disso! Para já, o Irão é frágil como o Iraque. Já não falta muito para que, com toda essa «electricidade», se torne intocável como a Coreia do Norte.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Sionismo = Nazismo (dizem...)

«Os israelitas são os novos nazis!», diz o pessoal do Hezbollah quando há saudações em nome da causa...

Sim, mas repara... dizer «iSSrael» não é homofóbico!

Ontem li no blog de Daniel Oliveira, «Arrastão», algo que me intrigou. Não é altura de discutir as suas posições em relação ao conflito israelo-palestiniano. Fica para outra ocasião. O que me intrigou foi o seguinte: o blog em questão tem uma política de aprovação de comentários que deve obedecer a critérios. Até aqui tudo bem. Pode ler-se que não serão aprovados comentários: «1 - De teor racista ou homofóbico ou que façam a apologia do fascismo ou do nazismo». Nada mais justo, ao que parece. Leio também, no entanto, que foi «aprovado» o seguinte comentário: «Israel não é um estado, é um roubo de terras acompanhado de um genocídio lento e de uma bantustização apartheidesca por racistas e fundamentalistas nazi-sionistas. Esse tumor maligno para a paz mundial deve ser erradicado do Médio Oriente e a Palestina do Jordão ao mar, de Eilat a Kiriat Shmone, deve voltar a ser o que sempre foi antes da Nakba: um país livre para muçulmanos, judeus e cristãos de boa vontade, uma sociedade multicultural e democrática sem a peste sionista. O lugar dos nazi-sionistas é na forca, como os seus modelos nazis». Ou seja, não será aprovado nenhum comentário de apologia ao nazismo como «Heil Hitler!», mas pode ser aprovado um comentário que chame «nazi» ao Estado de Israel? Se um neonazi comentar no blog de Daniel Oliveira que os judeus devem ser todos exterminados (judenrein, era assim que se dizia na Alemanha nazi), não será aprovado; mas se um «Euroliberal» qualquer comentar que o Estado de Israel deve desaparecer (judenstaatrein, diríamos nós), então já merece aprovação? Um nazi-anti-nazi pode escrever no «Arrastão». Hmmmmmmm... Será que teria sido aprovado se, em vez de apelar à morte de Israel, tivesse chamado a Israel «Estado de paneleirotes»? Anti-sionismo ignorante, tudo bem; homofobia é que não! Atenção. Não estou a discutir simples critérios de aprovação de comentários num determinado blog. Estou a discutir, a partir deles, critérios de discussão de um problema. Ao que parece, um dos mais sérios do mundo contemporâneo.

Pedofilia suave - O Mickey anti-semita ou a Jihadisney


Aqui se encontra um endereço absolutamente mágico: http://www.outsidethebeltway.com/archives/2007/05/hamas_uses_mickey_mouse_to_teach_terror/ É um Rato Mickey politicamente engagé a favor da causa palestiniana. Chama-se Farfur e ensina às criancinhas palestinianas como se deve odiar. Israel, obviamente. Não perca, no canal oficial do Hamas, a Al-Aqsa TV.
Nota: ainda indisponível em DVD.
(9 de Maio de 2007)

Cartoontologia II

Eis a diferença. A liberdade de expressão consite, justamente, em dizer algo que poderá ofender profundamente as convicções de outro. O Ocidente é incompreensível sem esse potentíssimo fenómeno. Também o Ocidente já foi intolerante em relação à crítica e ao escárnio. Aqui, no Ocidente democrático, a ofensa pode mesmo ser punida em sede própria: os tribunais. Mas suspeito que há ainda lugares neste mundo em que a liberdade de expressão dos ocidentais exercida em terras ocidentais merece o tratamento mais bárbaro. Ofendeste-me, não tolerarei, não me interessa sequer «discutir» (verbo claramente ocidental): tenho de matar-te. Por cada cartoon uma bomba, uma granada, um tiro, uma pilhagem. A lógica da exemplar reacção de grande parte do mundo muçulmano aos cartoons de Maomé é mais ou menos esta: «Ai de ti que me chames nomes, ó grandessíssimo filho da puta!»

Elogio do maniqueísmo - popperiano

É polticamente incorreto dizê-lo. Portanto, politicamente delicioso. E Popper disse-o, em 1988, exactamente como deve, ainda hoje, dizer-se: «Não quero terminar sem umas palavras sobre o êxito da busca de um mundo melhor ao longo dos 86 anos da minha vida, num período que cobre duas guerras mundiais absurdas e ditaduras criminosas. Apesar de tudo, e muito embora tenhamos falhado em tanta coisa, nós, os cidadãos das democracias ocidentais, vivemos numa ordem social mais justa e melhor (porque mais favorável às reformas) do que qualquer outra, de que tenhamos conhecimento histórico». No combate entre a justiça e a injustiça, entre a democracia e o terrorismo e/ou a ditadura, entre uma criança que se protege refugiada num bunker e uma criança doutrinada para se fazer explodir, há um maniqueísmo decente, este maniqueísmo popperiano. Para que não cheguemos ao inominável ponto de perdermos o sentido do escândalo, da vergonha e do horror. Para que fique claro, portanto, que Bush não é comparável a Saddam Hussein e a Ahmadinejad nem o Estado de Israel ao Hezbollah e ao Hamas. Claro que há nisto dois pesos e duas medidas. E ainda bem. Todo o conceito de racionalidade se entorna quando, com medo do maniqueísmo, fazemos equivaler Israel ao Tercerio Reich (já vi escrito «iSSrael»), a Palestina a Auschwitz, Sharon a Hitler, etc. Alguém criticou um dia a democracia se ela se der ao seguinte descaramento: 5 minutos para os judeus e 5 minutos para Hitler. Hoje em dia, ainda nos damos ao desplante de distribuir igualitariamente estes 10 minutos. E, de 10 em 10 minutos, lá vamos nós dando vitórias póstumas a Hitler e Estaline.

Os pêlos do rabo da Esfinge


Não fora aquele célebre episódio do Auto da Barca do Inferno em que o próprio Diabo demonstra vícios «anti-semitas» (termo ambíguo) e defender Israel seria fazer o papel de «advogado do Diabo». Não estamos, contudo, muito longe disso. Escrevo a partir do artigo de Fernando Pinheiro, surgido no nº anterior deste jornal, para dizer que representa a patética sinédoque de uma certa Europa: a dos tiques chomskyanos que fala de Direitos Humanos com a boca cheia. Esta, como o famoso Dantas, cheira mal da boca. Pim! A «boa consciência europeia» (termo que será sujeito, como ensinou Husserl, à sua própria epochè) diverte-se a contar os pêlos do rabo da Esfinge, para não ter que enfrentar o seu olhar (assim falava Unamuno). Mesmo assim, só conta alguns pêlos desse rabo. Será sempre mais fácil entregarmo-nos a uma espécie de acne intelectual e sermos absorvidos pelo complexo de David contra Golias, porque na guerra da opinião pública mundial Vénus sempre vencerá Marte. Afinal, conhecer a intrincada história do conflito não importa (a analepse teria de abarcar o próprio Império Otomano, os pogroms czaristas, o affaire Dreyfus...). O que importa é ser a favor da paz. Mas o que significa, em bom rigor, ser a favor da paz? Qualquer candidata a Miss Universo concordaria com o artigo de que falo. Quando lhes é solicitado que mostrem “consciência social”, lá vão dizendo, sem estragar o bâton: «Eu gostaria que não houvesse fome e guerra no mundo». Chapeau! E é mais ou menos esta beataria pacifista que transpira desse artigo, esquecendo que não fazer a guerra não explica, por si só, como fazer a paz. A paz não é uma consequência natural do fim da guerra. A paz, tal como a guerra, faz-se. Por isso não somos apenas Sapiens mas também Faber. E esquecemos que a guerra é uma invenção humana com o fim de resolver certos conflitos. O pacifismo é a subvalorização do inimigo (que termo tão antiquado, Sr. von Clausewitz...). Para acabar com a guerra não basta acabar com a guerra, não basta não fazê-la. Porque a paz desejada não se realiza só porque a desejamos. Deveríamos lembrar 1938 e o Acordo (ou a Vergonha) de Munique, todo ele uma tentativa nobilíssima de apaziguar (a noção de «paz» está aqui contida) um Hitler traquinas. Mas a paz a qualquer custo tem sempre um custo elevado. Por isso disso disse Churchill: «Entre a desonra e a guerra, eles escolheram a desonra, e terão a guerra». Citar Shaw não chega. Até porque Shaw tem razão, mesmo contra os que o citam. Nada aprendemos com a história. Continuaremos a preferir a paz a qualquer custo. Mesmo que falsa. Mesmo que vichyzada. O artigo de Fernando Pinheiro é deste tipo. Tem as virtudes do “politicamente correcto”, mas também padece dos seus vícios. Pulula de expressões-gambuzino (é mais fácil falar dele do que vê-lo): «terrorismo de Estado», guerra «feita contra civis», «apogeu da crueldade humana», «guerra desleal» que «roça perigosamente a barbárie» (e, já agora, agora que se sabe que os 4 observadores da ONU que morreram no bombardeamento israelita foram feitos “escudos humanos” pelo Hezbollah, reveja o que escreveu sobre isso no seu artigo; retractar-se não lhe ficaria mal). Não importa se Israel apela com antecedência à população para abandonar os locais que vai atacar, perdendo com isso a vantagem estratégica da surpresa; não importa se, com isso, o número de mortos não é brutalmente maior do que o que seria se Israel estivesse a fazer uma guerra «contra civis»; não importa se Israel não faz propaganda dos seus mortos; não importa se o Hezbollah assume no seu programa (já o leram?) a «necessidade da destruição do Estado de Israel»: «Não reconhecemos nenhum tratado com a entidade sionista, nenhum cessar-fogo, e nenhum acordo de paz», «Condenamos vigorosamente todos os planos de negociação com Israel» (não sabiam?); não importa que Israel não tenha iniciado nenhuma das guerras de sobrevivência (digo bem) em que, desde 1948, se vê envolvido; não importa que apenas em Israel seja possível a um árabe muçulmano exercer o direito de voto em eleições e ter a esperança de, assim, ter alguma influência no resultado; não importa que a paz só se possa fazer com um agente responsável com quem negociar. O que importa é ser a favor da paz. Seja lá o que for que isso queira dizer. Comecemos então por nós próprios e denunciemos o flagrante obstáculo constitucional à paz portuguesa que é o Código Penal. E façamos de todos os seus exemplares um belíssimo auto-da-fé. De certeza que o crime desaparecerá da nossa sociedade como letras na areia que o mar docemente lambe e engole. A guerra deveria ser como a da Leopoldina: com exércitos de música. Mas apenas num mundo de Leopoldinas. Já ouviram o hilariante monólogo de Raul Solnado sobre a guerra de 1908? A guerra, obviamente, não é assim. Mas Raul Solnado estava a brincar; não, como tantos outros, a falar a sério. Já dizia Baudelaire que o maior ardil do Diabo é fazer-nos crer que não existe...
(Publicado no Jornal de Barcelos, no verão de 2006)

O kaffiyeh, a suástica e o Che


Já repararam como Israel consegue unir numa mesma causa fraterna as tendências mais improváveis? Hitler via judeus no bolchevismo que combatia o capitalismo. O comunismo identificava o capitalismo com os judeus. Hitler combatia ambos, porque ambos eram judeus. Hoje, em manifestações anti-Israel por esse panglossiano mundo fora, os jovens anti-sionistas ganzados de extrema-esquerda encontram os seus melhores e mais fiéis aliados nos jovens anti-semitas musculados de estrema-direita. Uma bandeira de Israel é hoje o suficiente para se abraçarem kaffiyeh's, t-shirt's do (cli)che Guevara e tatuagens da suástica. Não me venham dizer que Israel não contribui grandemente para a paz entre os povos e o universal e fraterno abraço de que falou, um dia, Dostoievsky...

«Por qué no te callas?» à maneira chavista

Eis a trauliteira Venezuela chavista. E eis como o regime vive em torno da televisão. Iris Varela, uma deputada do Movimento Quinta República (MVR), partido do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, invadiu a emissora TV Regional de Táchira (TRT), fez em cacos o cenário de um programa e esbofeteou um jornalista, Gustavo Azócar. Ao que parece, o jornalista em causa escreveu um livro que contém um capítulo que faz referência a aspectos da vida privada da deputada. Acho que sei como esta história vai acabar: a deputada vai acusar o jornalista por agressão e o jornalista vai acusar a deputada por difamação. E só para ficarmos esclarecidos em relação ao clima pacífico em que o jornalismo venezuelano vive sob o tolerante chavismo, durante a transmissão, o jornalista responsabilizou a deputada Iris Varela, um companheiro de partido, Luis Tascón, o governador de Táchira, Ronald Blanco La Cruz, e o próprio presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pelo que eventualmente possa acontecer aos seus três filhos, mulher, mãe e a ele próprio. Bem, vamos cá ver onde se poderá meter aqui a CIA ao barulho. Hmmmmmmm...

Prever o passado

Quantos anos mais precisaremos ainda para perceber que o regime chavista é um pesadelo há já 10 anos? Quantos anos mais precisaremos ainda para prever o tempo de uma década passada? Falta-nos ainda saber prever a lição soviética na futura Venezuela. Controlo da informação? Repressão da oposição? Fim da propriedade privada (menos, claro está, a ou as do próprio Chávez)? Constitucionalização da perpetuação no poder? Ai se isto se passasse nos EUA... O que não diriam os boçais anti-bushviques! O caso de Chávez é sintomático da falência política de uma certa esquerda. Calma, dizem, gostemos ou não, Chávez foi eleito democraticamente e a democracia é isto mesmo: a possibilidade de a maioria eleger mesmo aqueles de quem politicamente não gostamos. No caso venezuelano, portanto, a democracia esgota-se no exercício do direito (bastante ambíguo) de voto. Mesmo que o eleito em causa não se comporte democraticamente. Claro que este orwelliano «patofalar» logo se transubstancia se o assunto se chamar George W. Bush. Aí o argumento é precisamente o inverso: Bush foi eleito democraticamente, mas convenhamos que 1) os americanos, ao contrário dos venezuelanos, são imbecis como sinos e 2) Bush não se comporta democraticamente, é tudo menos um democrata, olhem para o Iraque, blá-blá-blá, vejam Guantánamo, blá-blá-blá... Basicamente, estamos a perder a capacidade de chamar os bois pelos nomes.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Cartoontologia


Defendo tanto a liberdade de expressão como a liberdade após a expressão.
(28 de Dezembro de 2006)

«Por qué no te callas?»



Uma única pergunta. Deliciosa. Deliciosamente wittgensteiniana. Deu-me verdadeiro gozo republicano tão nobre gesto monárquico. É uma das perguntas que a democracia faz à ditadura, quando traduzida em espanhol. A outra, em português, é: «E se fosses à merdinha?»

Israel: o atrevimento de existir, hoje

Bem, agora os judeus têm novamente o seu lar. Um lugar que é seu. E aí é que está. Não importa quantas vezes os Estados Unidos e os poderes europeus tentam mandar em Israel, se chegar à sobrevivência da sua nação, do seu povo, eles lutarão como nenhuma leoa alguma vez lutou para salvar as suas crias. Eles lutarão com uma tal ferocidade, uma tal determinação e uma tal perícia que nos assombrará a todos.
(Joe McCain)

Afinal, e se uma bomba israelita fizer mais pela paz do que todas as resoluções da ONU? Se assim for, a quem deve ser imputada a triste responsabilidade? À marginalidade de Israel ou à incompetência das Nações Unidas? Já sabemos o que significa, para as putativas Nações Unidas, o exercício da «diplomacia»: não fazer rigorosamente nada por meio de resoluções e propostas de aprovação de sanções. Não fosse a situação tão séria e diríamos que já tínhamos visto tudo isto em certo filme dos Monty Python. Em casos tão prementes como o de um Irão nuclear, esta evidência torna-se ainda mais flagrante. Veio a confirmar-se, há pouco, aquilo que qualquer pessoa minimamente atenta havia já suspeitado: Israel está, as we speak, a estudar a hipótese de fazer com o Irão de Ahmadinejad aquilo que, em 1981, fez com o Iraque de Saddam. Nessa altura, como se sabe, Israel, num assalto aéreo de fazer inveja aos melhores filmes de ficção (vale a pena conhecer os pormenores da operação em Os Espiões de Gedeão), destruiu o reactor nuclear que o defunto Presidente estava a construir com o apoio do berço dos Direitos Humanos, la France. Obviamente, Israel foi condenado na «opinião mundial» (essoutro monótono fenómeno da globalização, a estupidez global ou globlá-blá-blá). Alguns (os mais sensatos, espero) suspiraram de alívio por dois motivos: por Israel ter destruído a possibilidade de um Iraque nuclear e por ter sido Israel a realizar esse higiénico «trabalho sujo». Ao que a The Spectator conta, Israel está tecnicamente preparado para realizar, sozinho, um ataque às respectivas instalações iranianas. E é bom que não nos convençamos de que Israel está a brincar. Se esse cenário vier a confirmar-se, o grande dedo acusatório apontar-se-á, sem surpresas, a Israel. Mas o mundo vai ter que perceber, mais tarde ou mais cedo (mais tarde do que mais cedo, provavelmente), que Israel está, desde o dia em que nasceu, determinado a existir, custe o que custar; que Israel não negociará o seu inegociável direito a existir, custe o que custar; e que Israel não vai pedir desculpa nem licença a ninguém para existir, custe o que custar. Nem que, para isso, tenha de fazer, vezes sem conta, o «trabalho sujo» que mais ninguém está disposto a fazer. In suo esse perseverare conatur – não era assim que dizia um outro judeu, Espinosa?Até certo ponto, sinto-me mais seguro por saber que existe neste planeta idiota um pequeno mas deliciosamente teimoso Estado que não está disposto a aceitar a sua própria e carinhosa eutanásia por procuração nem a cometer com o pequeno Hitler iraniano o mesmo erro que, contra o que prevenira Churchill, a Europa (como sinédoque, entenda-se) cometeu, não há muito tempo, com o grande Ahmadinejad austríaco. A diplomacia de antanho não evitou o rearmamento obeso da Alemanha nazi, lembram-se? E, contudo (ou: e por isso mesmo), também não evitou a guerra. Se Israel se vir obrigado a iraquizar o Irão, choverão, já sabemos, as mais indignadas críticas que imaginar se pode. Acusar-se-á Israel de ser um perigo contínuo para a paz mundial. Acusar-se-á Israel de agir arrogantemente à margem do Direito Internacional. Os EUA serão igualmente acusados de cumplicidade, já se sabe. Os bloquistas e os comunistas de toda a parte abusarão, como sempre, do seu poder retórico e travestirão as mais velhas metáforas com o mais recente silicone metafórico, diante do qual voltarei a bocejar indignadamente. A Ocidente, nada de novo, portanto. Todavia, talvez no dia em que percebermos que não é apenas de Israel que se trata e que, como disse Miguel Esteves Cardoso recentemente sobre o conflito no Líbano, «Nós também somos Israel», talvez nesse dia, dizia, também nós estaremos dispostos a ter que, de quando em quando e em legítima defesa, «sujar as mãos», porque há momentos na vida dos Estados (como na das pessoas) em que essa é a única maneira de viver de consciência limpa.
Não há muito tempo, alguém escreveu sobre Portugal e o seu "medo de existir". Com Israel passa-se o inverso: um sublime atrevimento de existir. Assim. Sem mais.
(23 de Janeiro de 2007)

Estupidez - ou a Oitava Maravilha


Na cerimónia das novas 7 maravilhas, aplaudiu-se muito. A Estátua da Liberdade, essa, foi monumentalmente assobiada. Foi certamente uma vaia política. Símbolo de esperança e de liberdade, estava mesmo a pedir uma assobiadela. Afinal, somos anti-americanos e, por isso, é um ritual clássico assobiar tudo o que venha desse país demoníaco. Claro que a China e a Jordânia lá estavam, essas metáforas vivas da democracia, da liberdade e da esperança de milhões. Evidentemente, países como a China e a Jordânia não mereciam ver os seus belos monumentos vaiados. Os EUA, pelo contrário, e os seus Bush... Porque nós sabemos bem o que assobiamos. As nossas consciência e coerência políticas são impolutas. Detestamos os EUA. Basicamente, somos estúpidos. Ingratos, ignorantes, maravilhosamente estúpidos.
(17 de Julho de 2007)

Nostradamus para o Médio Oriente 2007


Ahmadinejad, Mahmoud: promoverá um seminário científico de dois dias acerca das duas maiores verdades históricas que o Ocidente não quer que se saiba. No primeiro dia: «O Holocausto nunca aconteceu»; e no segundo dia: «Irão democrático e embaixador da paz mundial». Nuno Rogeiro recusará estar presente e Ahmadinejad apresentará um atestado de esquizofrenia para provar ao mundo democrático ocidental que, nesse seminário, haverá lugar para o contraditório.
Bento XVI: pronunciará um discurso sobre as origens essénicas do cristianismo, o que, obviamente, será visto como uma ostensiva provocação ao Islão, sendo, portanto, atribuído, na «rua árabe», à Mossad. Bandeiras do Vaticano e de Israel são queimadas ao som de fatwas estridentes. No Prós e Contras dedicado ao tema, Miguel Portas atribuirá a crise despoletada à falta de sensibilidade do Papa, fará um trocadilho pseudo-espirituoso sobre Nazinger, finalizando, ao andor de palmas, com uma crítica enigmática a Samuel Huntington.
Europa(-Pátria-dos-Direitos-Humanos): aguardará com grande expectativa as negociações por si propostas entre países e organizações «militantes» muçulmanos e o «fascista camuflado» Estado de Israel. As negociações não chegarão a realizar-se em 2007, uma vez que, apelando ao cumprimento do putativo Direito Internacional, é marcada uma reunião para Março com vista a eleger os países que deverão formar uma Comissão de Negociação para o Médio Oriente (CNMO) na qual se delegarão, legitimamente, poderes e competências a 5 países europeus com vista à marcação da primeira reunião extraordinária da CNMO para Julho, da qual sairá uma proposta de pontos de negociação a ser aprovada pela própria CNMO em Setembro. A proposta é aprovada por unanimidade pelos 5 países constituintes e uma nova reunião de leitura e aprovação da acta da reunião de Setembro é marcada para Dezembro, na qual se distribuem presentes alusivos aos países constituintes e se desejam mutuamente «Boas Festas» de modo a não ferir nenhuma susceptibilidade confessional nem o espírito laico de uma Europa que se quer tolerante em relação às diferenças religiosas que a constituem. Entretanto, uma nova reunião da CNMO é marcada para a Primavera de 2008 a fim de – e cito – «urgentemente, pôr termo à violência sionista na Faixa de Gaza».
Hamas: reunirá em sessão extraordinária com a seguinte ordem de trabalhos: 1) Leitura e aprovação da acta da reunião anterior em que se deliberou que Israel deve, de uma vez por todas, aceitar, democrática e pacificamente, os termos da sua própria e absoluta destruição; 2) Propostas de destruição do Estado de Israel; 3) PEEV: Plano de Execução de Estratégias de Vitimização para impressionar os europeus cujas capitais tencionamos aterrorizar e o próprio Ban Ki-moon, já que resultou com o Kofi Annan [gargalhada maquiavélica]; 4) Treino de crianças para «mártires» e «escudos humanos» até aos 9 anos de idade; 5) Outros assuntos de relevância altamente duvidosa postos à discussão apenas «para europeu ver»: a) democratização do mundo islâmico, b) desenvolvimento da «Palestina», c) igualdade de direitos para homens e mulheres. A acta é lida integralmente na Al-Jazeera e dirgida a Israel que, inexplicavelmente, recusa discuti-la, sendo acusado de falta de cooperação: «Mais uma vez, Israel está escandalosamente a sabotar um plano de paz irrecusável», poderá ler-se num comunicado do Hamas à imprensa.
Hezbollah: reunirá em sessão extraordinária com a seguinte ordem de trabalhos: 1) Leitura e aprovação da acta da reunião anterior em que se deliberou que Israel deve, de uma vez por todas, aceitar, democrática e pacificamente, os termos da sua própria e absoluta destruição; 2) Propostas de destruição do Estado de Israel; 3) PEEV: Plano de Execução de Estratégias de Vitimização para impressionar os europeus cujas capitais tencionamos aterrorizar e o próprio Ban Ki-moon, já que resultou com o Kofi Annan [gargalhada maquiavélica]; 4) Treino de crianças para «mártires» e «escudos humanos» até aos 9 anos de idade; 5) Outros assuntos de relevância altamente duvidosa postos à discussão apenas «para europeu ver»: a) democratização do mundo islâmico, b) desenvolvimento da «Palestina», c) igualdade de direitos para homens e mulheres. A acta é lida integralmente na Al-Jazeera e dirgida a Israel que, inexplicavelmente, recusa discuti-la, sendo acusado de falta de cooperação: «Mais uma vez, Israel está escandalosamente a sabotar um plano de paz irrecusável», poderá ler-se num comunicado do Hezbollah à imprensa.
Iraque: sunitas e xiitas dar-se-ão um pouco melhor do que Democratas e Republicanos nos EUA. Só que Democratas e Republicanos insultar-se-ão melhor. Na Europa continuarão as metáforas do «atoleiro» e as comparações com o Vietname só para mostrarmos aos americanos que sabemos mais de História do que eles. E, apesar da recorrente actualização de números, voltará a apontar-se para o milhão o número de mortos iraquianos. Seja como for, aconteça o que acontecer, a culpa será sempre dos EUA e de Israel.
Irão: Ahmadinejad levará a sério a Resolução 1737 sobre o nuclear iraniano e, para prová-lo, estampá-la-á numa T-shirt. A Comunidade Internacional regozijará com esta séria assunção de responsabilidades por parte de Ahmadinejad e resolve pedir à China algumas dezenas de T-shirts iguais para uma fotografia de grupo.
Israel: imperdoavelmente, insistirá em continuar a existir e a defender-se de todos os que pretendem destruí-lo e varrê-lo da superfície do planeta, o que será visto, na Europa-Pátria-dos-Direitos-Humanos, como uma atitude de «inenarrável arrogância» e que contribuirá apenas para o recrudescimento da violência na região, legitimando, dessa forma, a Terceira Intifada. Petulantemente imune às irrebatíveis críticas vindas de toda a parte, com a desavergonhada excepção do Grande Satã norte-americano, Israel persistirá em permanecer uma democracia, ao arrepio da vontade do mundo, continuando a conferir, teimosamente, representação parlamentar aos árabes israelitas, fazendo do Knesset um lamentável espetáculo dantesco de pluralidade democrática, o que será igualmente imperdoável, pelo menos para qualquer pessoa minimamente conscienciosa que não acredite na treta do Holocausto e que não tenha nem corninhos na cabeça nem caudas diabólicas a sair do rabinho. Israel trocará ainda umas boas centenas de prisioneiros palestinianos por um único Gilad Shalit, prova irrefutável do infinito desprezo pela vida humana por parte dos israelitas.
Líbano: ver Hezbollah, Irão e Síria. A sério, todo o Líbano de 2007 estará contido aí.
Mossad: será responsável por todos e todo o tipo de atentados que ocorrerão durante 2007, incluindo terramotos, tsunamis, acidentes de viação e os diálogos de Morangos Com Açúcar.
Nasrallah, Hassan: ver Hezbollah, mas aos berros.
ONU: Ban Ki-moon lembrará, de forma imprudente, que a Organização que agora preside é filha do Holocausto e que o tratamento faccioso atribuído a Israel tem de acabar, questionando, igualmente, os lugares da China, da Argélia, da Arábia Saudita, do Azerbaijão, do Bangladesh, de Cuba, da Nigéria, do Paquistão, da Tunísia, etc., no novo Conselho dos Direitos Humanos da ONU. Kofi Annan, com a verticalidade que sempre o caracterizou, vem para os media dizer que readquiriu a consciência moral e o espírito crítico, e, para prová-lo, tosse desconfortavelmente quando alguém diz as palavras «Ruanda» ou «Darfur», assobia para o lado quando ouve a expressão «Petróleo por Comida», volta a criticar os EUA e chega mesmo a fazer algumas caretas.
Palestina: sem dar descanso à sua Intifada interna, a Fatah e o Hamas trocam acusações anti-sionistas. Surgirá um cartoon do Hamas onde Mahmoud Abbas surge a rezar diante do Muro das Lamentações com uma kippah na cabeça, trajando um kaftan e sussurrando: «Oy, oy! Auschwitz existiu», e, na manhã seguinte, um jornal ligado a Abbas publica um contra-cartoon onde se pode ver Ismail Haniya a cantar o Hatikvah em cima de um Merkava que esmaga todas as criancinhas palestinianas que encontra pelo caminho. A Europa-Pátria-dos-Direitos-Humanos confunde-se. Não saberá de que lado palestiniano se colocará desta vez até que um intelectual francês se lembrará de forjar a expressão «os palestinianos dos palestinianos» para se referir a essa luta fratricida, conseguindo assim vitimizar ambos os lados sem responsabilizar nenhum. Os palestinianos e os europeus soltarão um grande «ufff!» e voltarão, de consciência limpa, a criticar Israel pela situação na Faixa de Gaza.
Portugal: é revelado o resultado do concurso “O Maior Português” e vence Vasco da Gama. Maomé não aparece nos 100 primeiros. Em Beirute, em Teerão, em Bagdad, em Damasco, na Faixa de Gaza e em tutti quanti são queimadas bandeiras de Espanha e, obviamente, de Israel.
Saddam Hussein: surpreendentemente, continuará morto.
Síria: continuará a fomentar a democratização do Líbano através do fornecimento de rockets para o Hezbollah, até que o Líbano se torne, finalmente, um país democraticamente unipartidário com capital em Damasco.
(7 de Janeiro de 2007)

Resolução 1387: «Isso assim também não está bem...»


Surpreendente... O Irão proibiu, não há muito, o acesso às suas instalações nucleares a 38 inspectores da ONU (da OIEA, mais precisamente), como resposta à resolução da ONU sobre o nuclear iraniano. Quem havia de dizer... Ninguém estava à espera disto. Reacções? «A opção militar não está na mesa em sítio nenhum», esclareceu Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum, para além de negociador privilegiado com a República Islâmica. «Não há solução militar, nem hoje nem amanhã», insistiu, então, o chefe da diplomacia francesa, Philippe Douste-Blazy. «Veja o que se passa no Iraque e no Líbano. Não acreditamos no unilateralismo. Há um sistema que é a ONU e um Conselho de Segurança fora do qual não devem ser tomadas medidas, e muito menos aplicar-se sanções». É isso mesmo! Isso vai certamente ensinar uma bela lição a Ahmadinejad! Só para ele ver quem é que manda, afinal! Agora podemos voltar-nos para Guantánamo e para o Iraque e criticar mais uma vez os imperialistas EUA em nome do nosso pacifismo. E Israel que nem pense em atacar o Irão! Guerra é que não! Estamos fartos. É tudo o que vemos na televisão. (25 de Janeiro de 2007)

Vá, sejamos racionais, é preciso ter fé!


Credo ut intelligam. Era assim que dizia outrora Santo Anselmo quando falava de Deus e dos seus insondáveis caminhos e é assim que dizem agora os seculares crentes quando falam de Ahmadinejad e das suas insondáveis intenções. Num pacato país onde não há homossexuais, obviamente não haverá armas nucleares. Afinal, é tudo apenas para fins pacíficos, já se sabe. Vá, americanos e israelitas, não comecem com conspirações. Só porque Ahmadinejad gostaria de ver a «entidade sionista» varrida do mapa? Só porque o Irão tem tão brutais reservas petrolíferas que a necessidade de energia nuclear para fins pacíficos é aí um tanto ou quanto bizarra? Só porque há documentos que falam de um Irão bem sucedido no enriquecimento de urânio e na extracção de plutónio a uma escala laboratorial, o que parecem ser dois bons trilhos para uma arma nuclear? Isto é, só porque Ahmadinejad mente descaradamente e a realidade desmente as nossas tão nobres e gentis crenças? Isso não é suficiente para desatar a cuspir bombas em cima de um povo que, ainda por cima!, fala farsi, que é uma tão rica língua. Vamos esperar. Umas resoluções e tal, uns encontros diplomáticos cheios de pompa e ridículo, e logo se vê. Se Israel for bombardeado, se uma bomba nuclear iraniana reduzir a pó toda a «entidade sionista», então sim, orando nos escombros de Telavive e pelas volatilizadas almas israelitas, daremos razão a quem previu que isso aconteceria se não fizéssemos nada. Mas, vejamos bem, Israel só terá razão contra Ahmadinejad se o Irão varrer Israel do mapa. De outra forma, se se prevenir, já terá abusado da nossa paciência. Por isso, para que Israel tenha, de facto, razão, é preciso que um novo Holocausto, um «Holocausto voador» extermine Israel. Temos de esperar para ver, certo? Não é delicioso e enternecedor ter razão assim? E não é estúpido?