
Os seres humanos são capazes das conversas mais interessantes. Numa conversa sobre futebol, somos capazes de conseguir falar do Bynia; numa conversa sobre literatura, somos capazes de conseguir falar do Saramago; numa conversa sobre democracia, somos capazes de conseguir falar do comunismo - enfim... A partir do momento em que dois seres humanos se juntam para falar, tudo é possível. Foi o que aconteceu ontem comigo e com uma queridíssima e inteligentíssima amiga. Sempre que temos oportunidade, discutimos sobre praticamente tudo. Ontem, no entanto, aconteceu algo de que não estava à espera. Veio à baila o 11 de Setembro. Um estranho 11 de Setembro, porém, que, ao que parece, começou já a espalhar-se por este nosso sempre tão deliciosamente panglossiano planeta azul. Depois do 11 de Setembro de 2001 a que eu assisti (terei mesmo assistido, Morfeu?), há agora um novo 11 de Setembro, des-matrixizado finalmente para nós, incautos: o 11 de Setembro de 2001 de 1984. Um 11 de Setembro orwelliano, portanto. Ao que parece, afinal o 11 de Setembro terá sido obra, não da Al-Qaeda de Bin Laden (por muito que o barbudo diga e reivindique), mas dos busheviques, isto é, obra «de dentro». Uuuuuuuh! a CIA e isso... Já sei, da CIA, da Mossad e do Pato Donald, todos em conluio! Pelos vistos, circula por aí um «documentário» que «prova» «cientificamente» a falsidade da narrativa oficial do 11 de Setembro. Evidentemente, já o vi. Evidentemente, achei-o pobrezito, mesmo como propaganda. Há já tanto por aí publicado que se deu ao trabalho de refutar todas as ditas teses dessas teorias da conspiração (uma teoria da conspiração é sempre uma filosofia para mentecaptos, Kant para idiotas). Mas, eu sei..., tratando-se dos EUA de Bush, há que desconfiar. Sempre. A guerra e isso... O petróleo e os interesses económicos... O grande capital finaceiro... Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz... Vamos cá ver uma coisa: podemos duvidar do que quisermos, mas temos de ser imunes à estupidez. Acaso terei de contra-argumentar? Serei obrigado a refutar racionalmente cada uma das «teses» do dito documentário? Se um louco se esforçar por me demonstrar que, afinal, o geocentrismo é a ciência correcta e não (como pensava o pobre Copérnico e, por causa dele, o mundo inteiro) o heliocentrismo, deverei eu contra-argumentar? Não, não devo. Já li muito Wittgenstein para me sujeitar a isso. Que virá a seguir? Sermos obrigados a dar atenção racional à astrologia e à quiromancia, a fim de podermos rebatê-las? Já agora, e um documentáriozito assaz científico sobre Vilar e Perdizes, que dizem? Que se diz a esses doutores Xibangas do 11 de Setembro? Não há no mundo racionalidade bastante para Habermas. Não é a suposta ciência que dá tanta credibilidade a esse «documentário», é o nosso sempre reguila antiamericanismo. Sempre pronto para fazer cenas. Para se ridicularizar. Volto a dizer, na medida em que não me parece uma ideia completamente estapafúrdia: podemos duvidar do que quisermos, mas temos de ser imunes à estupidez.
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