Saramago voltou a abrir a boca. Desta vez para dizer: «Marx nunca teve tanta razão como hoje». Afirmação original, sobretudo porque desde meados do século XIX que há sempre quem diga que Marx nunca teve tanta razão como hoje. No fundo, porque Marx tem sempre razão. Tendo ou não tendo razão. Justamente porque Marx não tem razão, Marx tem sempre razão (raciocínio tipicamente comunista, eu sei). Marx tinha razão na altura do Manifesto e d’O Capital; tinha razão na altura da revolução bolchevique; tinha razão na altura do Gulag; tinha razão na altura em que a URSS e o Muro de Berlim ruíram; tinha razão na altura da Pedra de Roseta e até tinha razão uma altura em que eu caí e aleijei-me e tudo. E, morto o comunismo e, com ele, 100 milhões de pessoas, continua a ter razão. Se o comunismo tivesse vencido o capitalismo, Marx teria tido razão. Como foi o capitalismo a vencer o comunismo, então a conclusão é, como é óbvio, completamente diferente: Marx tem razão. Que importa, afinal, que a realidade tenha desmentido Marx? Se Marx não tem razão, o problema não é de Marx mas do mundo. O comunismo, como o leito de Proscrustes, estica e amputa. Que é a sua única forma de compreender a realidade. Há qualquer coisa de Nostradamus ou de Zandinga no marxismo: tal como a futurologia, também não contém margem de erro. Esquiva-se ao confronto com os factos. O Avante! chama aos factos «a história escrita à maneira de Washington». O raciocínio é fatal, de tão simples: aquilo que foi previsto acontecer, acontecerá necessariamente. E se não tiver acontecido aquilo que foi previsto, é porque acontecerá ainda. Necessariamente, claro. Se não agora, então mais tarde. Quando? Sei lá! Eu é que sei? Para uma teoria que se quis científica e materialista, é interessante a forma como se parece com o mais rudimentar dos milenarismos religiosos, à espera ainda do seu momento apocalíptico. O que é o marxismo? É fácil defini-lo pela negativa: é aquilo que se esquiva quando falamos em factos históricos. Mas também é fácil defini-lo pela positiva: é aquilo que se pavoneia quando falamos de ciências ocultas. Que importam os erros do marxismo, se o marxismo é uma religião e Marx o seu profeta? Que importa que Marx esteja morto, se há gente que ainda ouve a voz do cadáver? Há muito que o marxismo deixou de ser uma interessante teoria filosófico-económica e se transubstanciou (termo religioso que lhe fica bem) num patético fenómeno paranormal. Não é o capitalismo que ridiculariza Marx, mas o próprio comunismo. O capitalismo limitou-se a assistir à morte de Marx. É o comunismo que, à maneira do espiritismo, insiste em ressuscitá-lo. Estamos sempre à espera de poder dar razão a Marx. E é por isso que a subida do preço dos combustíveis ou a guerra no Iraque têm mais importância do que os campos concentracionários na Sibéria ou a queda do Muro de Berlim. Mais 3 cêntimos na Galp e o «metade da China pode muito bem ter de morrer» do Grande Salto chinês passa a ser, num cérebro comunista, como a caca que Deus tira do nariz. Que importa que Marx tenha afirmado que o fim inevitável do capitalismo seria provocado pelas mesmas leis inexoráveis de evolução e mudança sociais que engoliram anteriores sistemas (é toda a teoria do «coveiro» e da pauperização) e que, no entanto, não tenha afinal acontecido? Que importa que o advento da «sociedade sem classes» tenha sido preterido por um outro fenómeno mais querido aos povos (vá lá saber-se porquê) chamado «eleições livres»? Que importa que as pessoas prefiram a democracia ao totalitarismo? Que importam, numa palavra, as pessoas? Que importa, no fundo, que Marx não tenha razão se nunca como hoje Marx teve tanta razão? Que importa ter ou não ter razão quando ter ou não ter razão não importa? Convenhamos. Marx tinha razão quando dizia, no 18 de Brumário, que as grandes personagens surgem na história duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. O próprio Marx apareceu já uma primeira vez, em Estaline, Mao e tutti quanti, como tragédia. Ei-lo agora uma segunda vez, em Saramago e tutti quanti, como farsa. Saramago tentando ressuscitar o marxismo é a prova inequívoca de que Marx nunca teve tanta razão como hoje. Não o Karl, mas o Groucho.quarta-feira, 2 de julho de 2008
Marx tem sempre razão
Saramago voltou a abrir a boca. Desta vez para dizer: «Marx nunca teve tanta razão como hoje». Afirmação original, sobretudo porque desde meados do século XIX que há sempre quem diga que Marx nunca teve tanta razão como hoje. No fundo, porque Marx tem sempre razão. Tendo ou não tendo razão. Justamente porque Marx não tem razão, Marx tem sempre razão (raciocínio tipicamente comunista, eu sei). Marx tinha razão na altura do Manifesto e d’O Capital; tinha razão na altura da revolução bolchevique; tinha razão na altura do Gulag; tinha razão na altura em que a URSS e o Muro de Berlim ruíram; tinha razão na altura da Pedra de Roseta e até tinha razão uma altura em que eu caí e aleijei-me e tudo. E, morto o comunismo e, com ele, 100 milhões de pessoas, continua a ter razão. Se o comunismo tivesse vencido o capitalismo, Marx teria tido razão. Como foi o capitalismo a vencer o comunismo, então a conclusão é, como é óbvio, completamente diferente: Marx tem razão. Que importa, afinal, que a realidade tenha desmentido Marx? Se Marx não tem razão, o problema não é de Marx mas do mundo. O comunismo, como o leito de Proscrustes, estica e amputa. Que é a sua única forma de compreender a realidade. Há qualquer coisa de Nostradamus ou de Zandinga no marxismo: tal como a futurologia, também não contém margem de erro. Esquiva-se ao confronto com os factos. O Avante! chama aos factos «a história escrita à maneira de Washington». O raciocínio é fatal, de tão simples: aquilo que foi previsto acontecer, acontecerá necessariamente. E se não tiver acontecido aquilo que foi previsto, é porque acontecerá ainda. Necessariamente, claro. Se não agora, então mais tarde. Quando? Sei lá! Eu é que sei? Para uma teoria que se quis científica e materialista, é interessante a forma como se parece com o mais rudimentar dos milenarismos religiosos, à espera ainda do seu momento apocalíptico. O que é o marxismo? É fácil defini-lo pela negativa: é aquilo que se esquiva quando falamos em factos históricos. Mas também é fácil defini-lo pela positiva: é aquilo que se pavoneia quando falamos de ciências ocultas. Que importam os erros do marxismo, se o marxismo é uma religião e Marx o seu profeta? Que importa que Marx esteja morto, se há gente que ainda ouve a voz do cadáver? Há muito que o marxismo deixou de ser uma interessante teoria filosófico-económica e se transubstanciou (termo religioso que lhe fica bem) num patético fenómeno paranormal. Não é o capitalismo que ridiculariza Marx, mas o próprio comunismo. O capitalismo limitou-se a assistir à morte de Marx. É o comunismo que, à maneira do espiritismo, insiste em ressuscitá-lo. Estamos sempre à espera de poder dar razão a Marx. E é por isso que a subida do preço dos combustíveis ou a guerra no Iraque têm mais importância do que os campos concentracionários na Sibéria ou a queda do Muro de Berlim. Mais 3 cêntimos na Galp e o «metade da China pode muito bem ter de morrer» do Grande Salto chinês passa a ser, num cérebro comunista, como a caca que Deus tira do nariz. Que importa que Marx tenha afirmado que o fim inevitável do capitalismo seria provocado pelas mesmas leis inexoráveis de evolução e mudança sociais que engoliram anteriores sistemas (é toda a teoria do «coveiro» e da pauperização) e que, no entanto, não tenha afinal acontecido? Que importa que o advento da «sociedade sem classes» tenha sido preterido por um outro fenómeno mais querido aos povos (vá lá saber-se porquê) chamado «eleições livres»? Que importa que as pessoas prefiram a democracia ao totalitarismo? Que importam, numa palavra, as pessoas? Que importa, no fundo, que Marx não tenha razão se nunca como hoje Marx teve tanta razão? Que importa ter ou não ter razão quando ter ou não ter razão não importa? Convenhamos. Marx tinha razão quando dizia, no 18 de Brumário, que as grandes personagens surgem na história duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa. O próprio Marx apareceu já uma primeira vez, em Estaline, Mao e tutti quanti, como tragédia. Ei-lo agora uma segunda vez, em Saramago e tutti quanti, como farsa. Saramago tentando ressuscitar o marxismo é a prova inequívoca de que Marx nunca teve tanta razão como hoje. Não o Karl, mas o Groucho.sexta-feira, 11 de abril de 2008
O burro europeu e a cenoura iraniana
A questão do nuclear iraniano não cessa de demonstrar o laboratório de antiamericanismo em que as elites francesas se tornaram. A culpa é sempre de Bush. E o que não for culpa de Bush, é ainda culpa de Bush. Como explicam estes cérebros franceses a difícil questão de um Presidente que ameaça de extinção um Estado soberano? Nas palavras de Alain Gresch, no Le Monde Diplomatique: «Il [Ahmadinejad] a trouvé, en M. George W. Bush, un partenaire idéal : en diabolisant l’Iran, en l’inscrivant dans la courte liste des pays de l’« axe du Mal », en n’écartant pas une option militaire contre le programme nucléaire, le président américain renforce les courants les plus durs à Téhéran. En agitant la menace d’un prétendu « croissant chiite » qui, de l’Irak au Liban, menacerait la stabilité de la région, le président américain introduit les ingrédients d’une guerre confessionnelle aux conséquences incalculables». Portanto, o que quer que venha a acontecer, a conclusão está sentenciada: a culpa será, não do ameaçador, mas do que enfrentar a ameaça. Academicamente, desconfiar de Bush é sempre louvável. Mesmo para aqueles que se preocupam em trancar à chave a porta de casa. Os comunistas e o terrorismo da não-violência
quinta-feira, 10 de abril de 2008
11 de Setembro de 2001 de 1984

Os seres humanos são capazes das conversas mais interessantes. Numa conversa sobre futebol, somos capazes de conseguir falar do Bynia; numa conversa sobre literatura, somos capazes de conseguir falar do Saramago; numa conversa sobre democracia, somos capazes de conseguir falar do comunismo - enfim... A partir do momento em que dois seres humanos se juntam para falar, tudo é possível. Foi o que aconteceu ontem comigo e com uma queridíssima e inteligentíssima amiga. Sempre que temos oportunidade, discutimos sobre praticamente tudo. Ontem, no entanto, aconteceu algo de que não estava à espera. Veio à baila o 11 de Setembro. Um estranho 11 de Setembro, porém, que, ao que parece, começou já a espalhar-se por este nosso sempre tão deliciosamente panglossiano planeta azul. Depois do 11 de Setembro de 2001 a que eu assisti (terei mesmo assistido, Morfeu?), há agora um novo 11 de Setembro, des-matrixizado finalmente para nós, incautos: o 11 de Setembro de 2001 de 1984. Um 11 de Setembro orwelliano, portanto. Ao que parece, afinal o 11 de Setembro terá sido obra, não da Al-Qaeda de Bin Laden (por muito que o barbudo diga e reivindique), mas dos busheviques, isto é, obra «de dentro». Uuuuuuuh! a CIA e isso... Já sei, da CIA, da Mossad e do Pato Donald, todos em conluio! Pelos vistos, circula por aí um «documentário» que «prova» «cientificamente» a falsidade da narrativa oficial do 11 de Setembro. Evidentemente, já o vi. Evidentemente, achei-o pobrezito, mesmo como propaganda. Há já tanto por aí publicado que se deu ao trabalho de refutar todas as ditas teses dessas teorias da conspiração (uma teoria da conspiração é sempre uma filosofia para mentecaptos, Kant para idiotas). Mas, eu sei..., tratando-se dos EUA de Bush, há que desconfiar. Sempre. A guerra e isso... O petróleo e os interesses económicos... O grande capital finaceiro... Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz... Vamos cá ver uma coisa: podemos duvidar do que quisermos, mas temos de ser imunes à estupidez. Acaso terei de contra-argumentar? Serei obrigado a refutar racionalmente cada uma das «teses» do dito documentário? Se um louco se esforçar por me demonstrar que, afinal, o geocentrismo é a ciência correcta e não (como pensava o pobre Copérnico e, por causa dele, o mundo inteiro) o heliocentrismo, deverei eu contra-argumentar? Não, não devo. Já li muito Wittgenstein para me sujeitar a isso. Que virá a seguir? Sermos obrigados a dar atenção racional à astrologia e à quiromancia, a fim de podermos rebatê-las? Já agora, e um documentáriozito assaz científico sobre Vilar e Perdizes, que dizem? Que se diz a esses doutores Xibangas do 11 de Setembro? Não há no mundo racionalidade bastante para Habermas. Não é a suposta ciência que dá tanta credibilidade a esse «documentário», é o nosso sempre reguila antiamericanismo. Sempre pronto para fazer cenas. Para se ridicularizar. Volto a dizer, na medida em que não me parece uma ideia completamente estapafúrdia: podemos duvidar do que quisermos, mas temos de ser imunes à estupidez.
Subscrever:
Comentários (Atom)